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FHC, o português correto e outras mentiras sobre educação – crítica enviada via e-mail pelo colega Carlos

24 de novembro de 2007

Bom texto que recebi via e-mail do colega Carlos, o Mudhah. A fala de FHC chega a ser perigosa e irresponsável, já que muitas pessas, inclusive professores, concordam com estes preconceitos sem nem perceberem que é preconceito e achando que escrever/falar segundo uma norma valorizada, ou falar mais de uma língua com disse FHC, equivale a ser inteleligente e competente. Precisamos desconstruir estas idéias e mostrar que o povo pode inventar outras melhores, se quiser.

Divulgo o texto aqui no blog e com certeza vou colocá-lo no grupo do qual participo, o TIC (tecnologias de informação e comunicação) de Pirituba.

Prezados colegas Professores,
Esta é uma sincera e honesta contribuição ao polêmico debate que já se iniciou hoje e promete estender-se por mais alguns dias sobre o tema educação, língua e o atual presidente do país representados na fala de FHC numa convenção do PSDB em Brasília na data de 23/11/2007.
Desculpe-me por incomodar aqueles que não se interessam por este tema ou debate.
Saudações,
Carlos Carota

FHC, o português correto e outras mentiras sobre educação
Carlos Carota23/11/2007
Odeio utilizar ao escrever o tom prescribente, ou melhor seria talvez valer-me de um neologismo, o prescritivismo pedagógico, que, principalmente nós professores, utilizamos diariamente em nossas falas, aulas ou textos, mas como ajudam-nos entender Bourdieu e Foucault, falar, tomar a palavra, já é um ato político em si, portanto, de disputa de poder, ou pelo poder, então não me eximirei de alguma crítica possível por apelar a meus colegas para tomarem algumas atitudes em relação ao que relato. Também já estou sabendo de antemão que poderão objetar a tal súplica, condenando-me ou simplesmente ignorando minha solicitação.
Pois bem, na data de hoje, na convenção nacional do PSDB, em Brasília, o “nobre” FHC, de quem os últimos dois mandatos todas pessoas decentes e minimante comprometidas com causas sociais gostariam de esquecer, fez críticas pesadíssimas ao atual ocupante do executivo federal, o presidente Lula.
As críticas começaram pelo já manjado preconceito lingüístico contra a variedade do português imaginariamente falada pelo presidente. Uma atitude que revela, no mínimo, um gritante ato de discriminação. Postura contrária até aos documentos oficiais publicados pelo MEC durante reinado de “sua sapiência” e de seu ministro da deseducação, o infesto professor(sic) Paulo Renato de Souza, os PCN. Lá, para quem já teve a oportunidade de ler, há condenações veementes à discriminação das variedades lingüísticas faladas pelos brasileiros.
Claro, como os PCN não são documentos revolucionários, permanecem apenas no apelo ao respeito e tolerância às manifestações das diferentes formas de falar o português no Brasil. Fato que em si já é um avanço em relação à histórica discriminação das pessoas, não casualmente as mais pobres, de regiões menos industrializadas, tais como o NE e áreas rurais de todo o país.
É certo que um documento mais progressista no mínimo defenderia não só o respeito, mas a valorização das diferentes variedades como elemento enriquecedor da humanidade de nós todos, pois é da tradição dos movimentos progressistas a valorização da diversidade como fundamento da convivência pacífica, produtiva e enriquecedora.
Historicamente pode-se perceber que todo projeto homogeneizador é de natureza fascista e visa apenas a facilitação do controle e da vigilância dos governos, controlados por elites religiosas, políticas e econômicas sobre suas populações. Na questão lingüística, sob o pretexto de termos tais como: língua nacional, materna, pátria, vernácula foi a tentativa homogeneizadora que imperou no nascimento dos Estados-Nações europeus no século XIX com a perseguição dos dialetos e diferentes falares nas regiões que nunca coincidiam com as divisas simbólicas do plano político. Tal homogeneização assim foi promulgada no Brasil com o decreto pombalino de proibição do uso da língua geral falada em todo o país, o nheengatu, nas relações cotidianas, bem como no ensino de língua nas escola em detrimento da língua dos colonizadores, o português. Foi assim também no governo de Vargas, fascista, embora alguns discordem disto, com a perseguição e proibição do uso e do ensino de outros idiomas europeus em escolas brasileiras.
Pelo fato do ex-mandatário do país erroneamente indicar que há um português correto, único e coincidentemente falado por alguns bem nascidos apenas, como no caso dele, deixa perceber o quão distante está de fato distante das questões relevantes em educação atualmente, principalmente as do campo da linguagem. Nega, o “ilustre professor” uspiano aposentado (3 aposentadorias, ao todo) até um documento publicado sob seu reinado.
Pena é que nisto infelizmente ele não está sozinho. E talvez seja justamente por isto que possivelmente sua fala até encontre apoio entre muitos de nossos colegas docentes. Creio até que principalmente entre os professores e professoras de língua portuguesa. Estes que talvez por desconhecer os PCN, com seus tímidos avanços na discussão de uma política lingüística menos discriminatória com as variedades do português falado no Brasil, ou por não perceberem o quanto fazem o jogo do poder e da dominação que quer, atendendo aos interesses de uma minoria escolarizada e bem nascida, discriminar a maioria da população que fala o português como todos falam, até o próprio FHC, ajudam tal jogo a continuar cotidianamente nas salas de aula por todo o país. Quantos não são nossos colegas que ficam o tempo todo corrigindo a fala (um equívoco político e erro do ponto de vista lingüístico) dos estudantes quando deveria aproveitar melhor seu tempo junto a eles para reivindicar bibliotecas e condições concretas materiais para que todos pudessem fruir textos escritos nas mais variadas variedades do português, inclusive a que finge dominar, “sua incelença” o ex-rei. Pois é possuindo e fruindo tais materiais que concretamente se aprende a ter o tal “jogo de cintura” em relação à linguagem e os julgamentos sociais a que todos estamos sujeitos. Mesmo que para defender sua variedade lingüística, do ponto de vista da lingüística (da ciência da linguagem) tão boa quanto qualquer outra, portanto ser um cidadão crítico é preciso que os estudantes, bem como os professores, tenham acesso a estes materiais impressos. Pois que prescrições gramatiqueiras servem apenas para reforçar a discriminação, repugnar quem já está à margem da sociedade, portanto, além de não ensinarem ainda acabam funcionando como estratégia de dominação das minorias sobre as maiorias que se sentem inferiorizadas por não falarem e nem escreverem as variedades comuns às elites letradas e ricas das cidades.
Sobre estas questões de política lingüística visando encerrar as idéias que aqui lancei sem, no entanto, esgotar o que se há para falar sobre o assunto, recomendo o livro do professor da UNB Marco Bagno intitulado A norma oculta (Parábola, 2003).
Gostaria de dizer, para finalizar, que FHC demonstrando tamanha ignorância dos fatos educacionais deixa ver também as prováveis causas do descalabro que deixou o campo da educação pública. O único setor que cresceu no seu governo foi o da privada (aqui vale a ambigüidade e o duplo sentido) graças ao títere dos vampiros da educação como mercadoria e fonte de lucros.
Não sendo menos preconceituoso FHC disse que Lula despreza a educação, tanto como política de governo, quanto a própria. Sobre o que Lula pensa sobre sua própria educação não me é franqueado falar. É questão de fórum íntimo do presidente. Mas, de pronto, pode-se entrever aqui novamente um enorme preconceito e equívoco cometidos por FHC por este condicionar inteligência, habilidade e até caráter à escolarização formal. Se isto fosse verdade o doutorzinho da USP teria revelado certamente ter comprado seus diplomas.
Educação como política de governo para FHC, ou o que ele realizou neste sentido em seu reinado, em nada o abona e qualifica para falar sobre o assunto com a autoridade que ousou falar.
A nós, professores, ao menos não podemos considerar correto a postura de FHC. Melhor ainda é que denunciássemos em todos os fóruns que freqüentamos e temos direito a voz o preconceito e discriminação que sua fala comporta. Fala esta que só confirma o lugar social de quem fala, o lugar dos que mandam e não aceitam os historicamente comandados ocuparem este lugar.
Indiferentemente do que faz Lula no governo em relação à educação, que não parece ser grande coisa, o que deve ser destacado por nós é que através da crítica de FHC não é só o Lula o atingido e inferiorizado, mas nós todos brasileiros, uma maioria que fala como Lula, tem história de vida muito próxima da de Lula e que se não teve acesso à escola formal, pública, gratuita e de boa qualidade no tempo devido, isto certamente deveu-se às historicamente construídas e bem defendidas por falas como a do rei combalido, FHC, táticas e estratégias de manutenção de poder, exploração das massas, e manutenção das péssimas condições destes que, no final, ainda são injustamente condenadas e individualmente responsabilizadas por sua atual situação como se pudessem ter tido, num sistema excludente, perverso e massacrante, escolha de fato.

(Carlos Carota é professor de língua portuguesa na rede pública estadual paulista)

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