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A Matrix e seus precursores

2 de junho de 2007


enviei este texto para sala101@yahoogrupos.com.br e publiquei no meu antigo blog.

Resolvi recuperá-lo por ter descoberto mais um filmes que antecipa o clássico Matrix (1999).
Achei em VHS numa banca de promoção: Mindwarp: Pesadelo Futuro, filme de 1991 com Bruce Campbell. Tem vários elementos de matrix, inclusive a revolta (“wake up”) contra um mundo de ilusão. A diferença é que a humanidade não é prisioneira, mas voluntária, nesta ” matrix”. Típico filme B com vilões mutantes, não dá pra dizer que é um bom filme, mas o final consegue surpreender duas vezes.

E em 15/11/2008, dia da República, descobri outro filme diretamente ligado a Matrix: “Cidade das Sombras (Dark City)“, 1999, de Alex Proyas (mesmo de O Corvo).

Este filme é uma viagem e além do conceito e a imagem do “herói salvador” inspirou (meio misturado com Ghost In The Shell) várias cenas de Matrix. Imperdível. Leia mais sobre em:

http://www.adorocinema.com/filmes/cidade-das-sombras/cidade-das-sombras.asp

E neste site há uma comparação precisa entre os dois filmes:

http://www.saindodamatrix.com.br/cinema/darkcity/index.html

Eis o texto: A Matrix e seus precursores

Que Rei Vermelho é este que nos sonha em realidade tão absurda? Tão cruel? E no entanto, também há beleza… entre elas a arte. Entre as artes o cinema. No cinema um filme (esticado em trilogia) que fez-faz muita gente duplipensar (Orwell) a obra e a realidade. E isto sem nenhuma idéia nova!
Porque, os acusadores sempre têm razão, matrix não possui um roteiro muito original. Sem a sorte que os irmãos Wachowski tiveram terminaria como uma HQ razoável, talvez “cult” como o Incal (se também fosse desenhada por alguém como Moebius), mas nada tão famoso quanto os X-men.
E digo sorte não só por terem conseguido filmar mas por terem inaugurado uma nova era nos efeitos especiais, onde destaco o bullet-time, a câmera em 360º e os atores digitalizados em impossíveis cenas super-reais.

Denuncio aqui as fontes de minha leve pesquisa. Autores que souberam ver a beleza (ou as limitações) desta obra, fazendo comentários sempre pertinentes. Sugiro estas leituras para se iniciar um interessante debate virtual e, quiçá, fertilizar novas criações a partir dos conceitos da Matrix. A maior parte do material (e isto parece até óbvio!) pode ser consultada pela Net:
A revista SuperInteressante nº 188 (maio 2003) da Abril desenvolve muito bem as questões filosóficas e religiosas do filme.
A Revista Vidadigital especial,ed. Van Blad, é bonita e lembra o filósofo e urbanista Paul Virilio, explicando que o filme propõe uma trama com “nova organização de tempo, espaço e velocidade”.
Isto é evidente no clima de fantasia e nonsense do primeiro filme e, principalmente, na narrativa quase que anti-linear do segundo filme, em que a estrutura da narrativa reproduz a “visão fora do tempo” que Neo está desenvolvendo, como se fosse ele próprio o Novo Oráculo ou um Dr. Manhatan (vide Watchmen) em fase de aprendizagem.
O caderno Mais, da Folha, trouxe vários artigos (Matrix dá Ibope!), em geral falando mal da obra (queriam que fosse mais “original”, mas já dizia Lavoisier, ou seria o Chacrinha?, Nada se cria, tudo se transforma. Pois só no principio de tudo houve o Verbo capaz de inventar do Nada)

Destaco: Dia 27/07/2003, Slavoj Zizek, filosofo esloveno, faz um paralelo do filme com o dilema do revolução (ou da mera ação política) socialista contra o sistema opressor capitalista.
Dia 09/11/2003, Marcelo Leite critica o vazio de conteúdo da série, focando-se mais no terceiro filme, e parece considera-lo um paradigma do “deserto do cinema”, americanizado e cheio de efeitos, super-velocidade, citações descontestualizadas.

Dia 16/11/2003, Salvador Nogueira resenha os livros “A Pílula Vermelha” de Glenn Yeffeth (org) e “Bem-Vindo ao Deserto do Real” de William Irwin (org), observando que “as pessoas vêem no filme o que querem ver, a despeito do que de fato contêm. Imaginação sobrepuja realidade”.
O Jornal Pandemônio (www.pandemonio.org), julho a agosto de 2003, traz Thomaz Napoleão duplipensando a obra, lembrando Orwell e observando como ela relativisa tecnologia e magia (religião pagã & cristã incluso) e, de certa forma, iguala o herói único, singular (Neo One) com o vilão múltiplo, mas sempre igual (as maquinas, os agentes e, principalmente, é claro, Smith de mil corpos) como “a construção artificial de sentimentos opostos e complementares, na medida exata para trazer a satisfação. Fascinar e dominar” – Ou seja, talvez o próprio filme (assim como o Neo enquanto manipulado pelo Arquiteto e pela Mother Oráculo) não seja mais do que um mecanismo (inconsciente de si mesmo?) de controle da população mundial, desiludida e insatisfeita com o sistema de vida humana atual.

As seguintes sugestões foram consultadas no site www.omelete.com.br, mas acho que podem ser rastreadas também pelo nome dos artigos nos sites de Busca:
– Marcelo Fortani, Matrix para principiantes, resume bem o filme.
– Heraldo Aparecido Silva, Matrix e a filosofia, explica muito bem a relação do filme com Platão.
– Durval Mazzei Noqueira Filho, Matrix e o cérebro, lembra Freud e o biólogo Maturana, explicando justamente aquilo que a maioria dos biólogos (e alguns outros pseudo-cientistas) teimam em não entender = que a realidade é mediada pela linguagem (a cultura) e duas pessoas podem perceber um mesmo evento de maneira diferente não porque são ¿estruturalmente¿ou “espiritualmente” diferentes, mas porque possuem culturas diferentes. Esta questão (interessantíssima e vital para se pensar a pedagogia atual) pode ser melhor problematizada pela leitura de mestres com Hanna Arendt, Machael Oakeshott, José Mário Pires Azanha, Lev Vygotsky e Norwood Russel Hanson (sigo aqui sugestões da Prof. Cristiane Gottschalk). Visão vital para se relativisar as “autoridades” e aprender a entender e tolerar a diferença.
– Érico Borgo, A religião e a mitologia de Matrix, recupera todos os paralelismos religiosos do filme, os óbvios de catolicismo, zen-budismo, oráculo Apolíneo e o mais interessante com o gnosticismo [o nome de Neo se refere ao autor do evangelho apócrifo gnostico, Tomás Ander(homem)+Son (filhos), alias, ¿filho do homem¿ é uma alcunha de Cristo, melhor compreensível pela leitura de Gibran Khalil Gibran].
– Marcelo Hessel, Novo paradigma em efeitos especiais, mostra o porque da fama desta obra, rastreando algumas citações em outras obras. Até aqui, Brasil, teve comercial de t.v. Imitando seus super-efeitos!
– Alexandre Ottoni www.jovemnerd.com.br, Matrix Interpretations, é o texto que melhor consegue “salvar” o terceiro filme da torrente de criticas negativas que ele provocou. Justifica algumas das cenas mais belas da trilogia (como o encontro de Neo com Rama-Kandra, verdadeira aula de lingüística e sentimento, mas pouco entendida pelos jornalistas) e esmiuça a polêmica: seria Zion uma segunda Matrix? Neo é um programa? De que lado está o Oráculo?

Meu autor preferido quando se trata de Matrix é Ricardo Kelmer , consulte seus comentários, sempre lúcidos, positivos e eruditos, em http://www.ricardokelmer.net/rklivromatrixdespertar.htm , onde o Oráculo e o caminho de evolução pessoal de Neo (que todos devemos percorrer) é explicado com requinte de poesia. A chave (a ¿escolha¿ ou ¿propósito¿ do segundo filme) está na autoconscientização, já pregada, lá atrás, pelos mestre Socrates, Lao Tse, Sidarta Gautama…
Kelmer também explica o Déja-vu e a quebra da lógica temporal humana (os eventos ocorrem um depois do outro? É possível ver o futuro?) justificando o Oráculo e todos (!) os nossos videntes. E explica porque Cypher é o personagem mais importante do primeiro filme ” sem ele não haveria final feliz”, assim como existe um ‘componente de autoboicote da psique’ que devemos identificar para conseguir superar nossos medos e dar um passo além na busca da liberdade.

Mas é preciso justificar o título deste singelo relato (também isto, um amontoado de citações, recortes, referencias)
Jorge Luís Borges em Kafka e sus Precursores, diz que “cada escritor cria os seus precursores”, uma obra só pode ganhar o estatuto de “nova” se, mesmo contando o mesmo, consegue modificar o passado, fazendo com que olhemos suas “fontes” com novos olhos, com um diferente interesse.

Na ácida critica de Marco Moretti, Wizard Brasil nº2, ano 1 (2003) da Panini, ele observa que o tema principal do filme já aparecia num episódio de Além da imaginação, “Drems for Sale”, em que “uma pacata dona-de-casa, que levava uma vida idílica (…) de repente despertava num casulo de metal em meio a milhões de outros, e descobria (…)que a sua vida toda e a do restante da humanidade não passava de uma realidade virtual induzida por máquinas…”

Outras referências mais comuns são o anime GHOST IN THE SHELL, chamado de “O Fantasma na Máquina’ aqui, no terceiro há citação de Dragon Ball na luta entre Neo e Smith, o Superman é uma constante, um antigo desenho americano (não lembro o nome, mas passou na Globo) mostrava heróis que se fundiam com maquinas de guerra (do ar, da terra e do mar) e num episódio de clima policial (semelhante ao ótimo Ash, de Animatrix) aparece uma realidade virtual freqüentada por hackers ciborgues. No livro que inspirou o filme Bladerunner Philip K. Dick imaginou uma religião fundamentada na realidade virtual e a integração mental (artificial, já que o isolamento social dificulta a reunião de pessoas ou o contato físico).
No livro NEUROMANCER de William Gibson e toda tradição ciberpunk da sci-fi moderna nem é bom falar, tão evidente (e direta) são estas fontes. Aliás: quando este livro vai virar filme? O próprio Keanu Reeves estreou um filme baseado num conto deste autor, Johny Mnemonic. Também sugiro os filmes Tron, da Disney, e O Passageiro do Futuro (The Lawnmower Man), que bem merecia uma seqüência dirigida pelos Wachowski, mas com roteiro (quem sabe?) de alguém como Alan Moore (Watchmen) ou o próprio William Gibson. (Já existe uma sequência para The Lawnmower… mas não tem nada a ver com o filme ou com o livro de Stephen King)

Em tempo, a mesma sensação de quebra da lógica do mundo e da própria narrativa de ficção pode ser encontrada em ótimos contos de Kafka, no Mágico de Oz e nos contos de Alice do Carrol, ambos super-citados no primeiro filme. Mas sugiro aqui dois do Borges: “El Inmortal” e “El Alef”, ambos facilmente acessíveis, no original em espanhol, pela Net.

Por enquanto é isto. O dilema esta lançado. Os irmãos eu sei o que ganharam, fama e dinheiro. Mas e nós? O que podemos fazer com isto?


Vários textos citados acima não estão mais nos mesmos lugares. Alguns (e outros sobre Matrix) podem ser achados no seguinte link:
http://especialmatrix.tripod.com/

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