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Livro Temas Gerais em Educação do editorial coletivo das letras

27 de novembro de 2018

Livro editado por Bruno Gerônymo Fellippe onde consta um artigo sobre gestão escolar escrito por mim adaptado de um post desse mesmo blog.

Temas Gerais em Educação PDF

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A Semana Dandara – consciência negra e cultura afro-brasileira

27 de novembro de 2018

Existem muitas formas de trabalhar a Lei 10.639/03. O ideal é que o ensino sobre a história do nosso povo negro e cultura africana e afro-brasileira permeie todas as disciplinas durante todo o período letivo. Mas abordar esse tema tão importante de forma construtiva, sem reforçar estereótipos e realmente combatendo preconceitos exige uma formação complexa e libertadora, para usar os termos de Edgar Morin e Paulo Freire, à qual nem sempre nós professores tivemos acesso na nossa formação inicial. Portanto trabalhar a formação contínua dos professores e demais funcionários da escola nesse sentido é essencial. Por isso, e pelo pedido de uma mãe de aluno na nosso Conselho de Escola, achamos importante criar um grande evento de celebração da nossa cultura afrodescendente, que também seria um espaço de formação para os educadores e especial para os alunos. Esse evento foi planejado para acontecer antes da tradicional Semana de Consciência Negra e do dia de Zumbi, onde as pessoas mais envolvidas com a temática costumam estar com a agenda cheia, e o chamamos de SEMANA DANDARA, remetendo a discussões que fizemos durante todo ano sobre empoderamento feminino e igualdade.Semana Dandara_banner facebook

A Imprensa Jovem Jornal LDS, com coordenação dos professores Tarcício Tatá, Cacá Saffiotti e Fabio Rodrigues fez o registro do evento na de forma educomunicativa na sua edição número 7, com todas as perguntas e captações sendo feitas pelos alunos durante o evento e a edição sendo feita pelo professor de língua portuguesa Tarcísio, que ensina os alunos sobre roteiro, edição de texto, construção de pauta… mas não tem nenhuma formação técnica específica sobre edição de vídeo e jornalismo. É uma produção livre, espontânea, que consegue captar bem a riqueza que foi essa semana de intensa discussão e apreciação da cultura negra. Como comentou a professora Grácia Lopes de Lima, referência em educomunicaçãoEstá aí, nesse post, uma ilustração de uma das grandes possibilidades de formação para a comunicação comunitária e de comunicadores locais. Quantas vezes os adolescentes já não terão acessado esse vídeo e analisado o jeito com que falam com os entrevistados e com os espectadores?! Entendemos que esse é o melhor caminho para descolarem dos modelos de jornalistas e de noticiários das grandes corporações!

Complementando esse ótimo vídeo, segue breve registro de todos os palestrantes, professores, especialistas, artistas que compareceram na escola nessa semana e mesmo depois, mas participando da mesma discussão.

A equipe dos alunos Naomi Brito, Kayky Santana e Camili Gama apresentação o vídeo-carta SOU PRETO (clique para assistir), feito em 2017 com orientação do professor Fabio Rodrigues de Artes. Ao ser apresentado em exposição na ETEC JARAGUÁ em 2018 esse vídeo foi premiado como melhor apresentação áudiovisual. Elis Santana, professora, mãe da Naomi, contou histórias africanas nas salas de Fundamental 1. Na foto acima ela aparece com roupas africanas.

Na abertura também todos assistiram o clipe aula com a música Zumbi de Jorge Ben: https://youtu.be/qFoOgKONIHY

No laboratório de informática os alunos pesquisaram sobre fake news, cultura maker e sobre cultura afro-brasileira, como mostra o jornal mural painel montado pelas poies (professoras orientadoras de informática educativa), Fernanda Prado e Priscila.

                     

                   

Vários professores também orientaram pesquisas e produção de cartazes, antes, durante e após o evento.

Vários alunos também participaram de oficinas de abayomi.

Maurício “Virgulino” Silva, da ECA / USP, fez a oficina de fotografia a partir de leituras Dandaras em Prosa e Verso. Registro dos textos e algumas fotos dos alunos nessa apresentação montada pelo Maurício:

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Patricia Rosa Donato da EMEF Jairo de Almeida falou sobre história e beleza de África, desconstruindo estereótipos.


Nobu Chinen falou sobre a presença negra nos quadrinhos, tanto como personagens quanto como autores; e sorteou os livros Jeremias Pele, Carolina e Cumbe. Na foto, Kaykt foi um dos ganhadores.

Silvania Francisca de Jesus do CIEJA Perus contou a história de Chico Rei no período manhã.

Laércio Quintino da EMEF Jairo de Almeida falou sobre Hábitos Alimentares em África e a Cultura Vegana.

Joyce Suellen Lopes Dias falou sobre Racismo Institucional, democracia racial e silenciamento da dor com os professores e fez leitura crítica de imagens com os alunos.

Daniel Pereira, do setor de comunicação da SME – Secretaria Municipal de Educação, falou sobre preconceito e relações etnico-raciais.

João Nazareth Jr. do Sinpeem falou sobre Racismo Institucional.

O empreendedor social Willian André e seu irmão o poeta Wesley MP, aluno da EMEF Badra, brilharam na abertura da Semana Dandara, falando sobre empoderamento e recitando poemas.

Também na abertura da semana teve oficina de turbantes e relatos de experiência com as professoras Carla Correia, Alessandra Brasil, Marlene Mendes e a ATE Tereza Froes, gentilmente liberadas pela escola EMEF Nany Benute.

Tivemos o privilégio de receber no fechamento do evento o grupo musical Canto de Resistência, representado por Francisco Inácio, diretor da escola emef Irene Garcia e Guiniver, professora do CIEJA Perus.

Douglas “Dodô” Calixto, jornalista e pesquisador do NCE / USP também visitou nossa escola e falou um pouco com os alunos.

Grupo The Black das nossas alunas Karen, Evelyn, Ana Julia e Leticia do 9o ano dançaram a música Dona de Mim da Iza mixada com recital de trechos do poema Gritaram-me Negra da Victoria Santa Cruz no fechamento da Semana, período manhã. https://youtu.be/FnGfgb_YNE8

Grupo Street Jairo da escola EMEF Jairo de Almeida, campeão do SUSDANCE 2018 fez o fechamento do evento. Vieram acompanhados pela professora poie Elaine Martins, educomunicadora, que também foi professora do Willian André.

Aconteceu após a Semana, mas merece registro junto por estar integrado na mesma temática a apresentação teatral do grupo FUXICO: A Batalha dos Encantados.


fuxico batalha dos encantados

E a apresentação do escritor Israel Neto Réu do Coletivo Literatura Suburbana na nossa Jeif, falando sobre seu livro Amor Banto em Terras Brasileiras.

israel neto

Vejam mais fotos e trechos de vídeo do evento SEMANA DANDARA 2018 nesse ÁLBUM COMPARTILHADO.

O Jornal LDS e sua edição 6

27 de novembro de 2018

Conforme release que copio a seguir,  escrito pelo colega professor de língua portuguesa, Tarcisio Tadeu Mendonça da Silva, canal no Youtube: @proftata1

aspas abrirA ideia inicial do projeto foi desenvolver nos estudantes uma visão crítica acerca do que é exposto pela mídia escrita e televisiva. Jornais escritos de grande circulação e telejornais foram analisados com a intenção de desconstruir a manipulação feita por meio da linguagem e seleção das informações que eram veiculadas.

Já repertoriados, partimos para a produção de um telejornal – o JORNAL LDS – que retratasse a realidade do bairro, dentro de suas carências e limitações. Os alunos partiram, então, para o estudo de campo, entrevistando pessoas que moravam no entorno da escola. Com a coleta das entrevistas, partimos para a fase de estúdios. Aproveitamos também para fazer uma sátira, ou seja, um telejornal que brincasse com alguns programas ainda hoje em circulação – o JORNAL DAS PODEROSAS.

Este trabalho foi inscrito sob o nome “Protagonismo nas entrelinhas da notícia” na 16ª edição do Prêmio Victor Civita – Professor Nota 10, de 2013. E ficou entre os finalistas daquele ano, dentre 3000 trabalhos escritos.

aspas fechar

 

 

 

jornal_lds
prof. Tatá Tarcisio com parte da equipe LDS

Após passar um tempo na gestão de uma outra escola, em 2018 o professor Tatá retornou à escola Luiz David e retomou o projeto, agora em parceria com o professor de matemática “Cacá” Carlos Eduardo Saffiotti e o professor de artes “Babu” Fabio Rodrigues dos Santos e recebendo o apoio possível da minha parte, Fabio Rogerio Nepomuceno, agora gestor da escola. Uma das coisas que foi possível conseguir nesse início foi um logo para o projeto e um uniforme, criados por meu ex-aluno Cristina Montini, que havia feito parte do Educom da escola Fernando Gracioso.

logo jornal lds fundo preto
Logo por Cristian Montini

Desde o começo, o projeto do professor Tatá buscou registrar e divulgar os eventos da própria escola. E tem muita coisa legal acontecendo na escola há bastante tempo. Um desses projetos interessantes é o Grêmio Escolar, coordenado pelo professor de educação física Adenilto Pereira de Souza. Foi a partir desse trabalho que surgiu a Semana do Estudante, evento que ocorre todo ano na escola. E também a partir disso o professor Adenilto passou a inscrever os alunos para participar do projeto Parlamento Jovem da Câmara Municipal de São Paulo, orientando os estudantes a cri. Na edição 2018 tivemos uma aluna,  Maria Eduarda Rodrigues de Almeira “Duda”, do 7º B,  escolhida como vereadora por uma dia. E o professor Tatá convidou a Imprensa Jovem Jornal LDS para participar da sessão solene. Essa cobertura jornalística educomunicativa foi feita de forma muito competente pelos alunos, registrou opiniões e análises dos alunos e professores e um discurso emocionante feito pela Duda para defender seu projeto de lei.

Feliz Dia dos Professores

12 de outubro de 2018
Precisamos sempre nos lembrar que fomos crianças.
 
Lembrar que fomos adolescentes.
 
Lembrar tudo que passamos e precisamos aprender para chegar a ser adultos.
 
Uma parte essencial desse aprendizado aconteceu ou começou na escola. Quem orienta essa aprendizagem de forma sistemática e coerente são os professores e demais funcionários, todos educadores, que estão trabalhando nas escolas.
 
Nada é mais importante que a família. Mas muitas vezes é também na escola que se descobre isso. Se descobre que a família pode ser melhor do que é. Nada deveria nos dar mais orgulho do que nosso lindo país Brasil. Mas com certeza é na escola que descobrimos que estamos numa nação, ela é realmente linda e pode ser melhor do que é. Os bons professores ensinam que é nossa responsabilidade e nosso direito melhorar o lugar onde estamos. E isso só é possível estudando e trabalhando em equipe. 
 
Na escola aprendemos que toda religião deve ser respeitada, mas precisamos de pesquisa e ciência para compreender e melhorar o mundo. Na escola aprendemos que toda diversidade deve ser respeitada e todos os conflitos devem ser resolvidos pelo diálogo e a negociação. Na escola deixamos de ser apenas filhos, filhas,  colegas, parentes… para começarmos a ser cidadãos com direitos e deveres perante toda sociedade.
 
Mais do que nunca precisamos dessa consciência: é dentro da escola que se começa a criar um mundo melhor para todos. Fazemos acontecer agora para que nossos alunos façam acontecer amanhã. Essa é nossa angústia, nossa tarefa gigante. Mas com certeza também é nossa alegria. Nosso trabalho tem sentido e significado.
 
A equipe gestora da nossa escola professor Luiz David Sobrinho tem a alegria de fazer parte desse grupo educador e atender com todo carinho nossa comunidade. Essa comunidade tem melhorado e vai melhorar ainda mais graças aos nossos alunos.
Feliz Dia das Crianças
Feliz dia das Professoras e dos Professores!
Leia mensagem do ano anterior

Tião Rocha

22 de agosto de 2018

“A Escola formal não está só na forma. Está dentro da fôrma. O pior é quando está no formol. É um cadáver.” É assim que o educador mineiro Tião Rocha, 59, vê o ensino convencional, de cujos métodos e conteúdos se afastou há mais de 20 anos para experimentar processos alternativos de educação.

À frente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento desde 1984, Rocha sempre persegue “maneiras diferentes e inovadoras” de educar, alfabetizar, gerar renda. Ele distingue educação de escolarização e busca um sonho: escolas que sejam tão boas que professores e alunos queiram freqüentá-las aos sábados, domingos e feriados. “Se ninguém fez, é possível”, diz.

 

continue lendo a entrevista no site do jornal:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u348104.shtml

 

Para mais informações consulte:

http://www.cpcd.org.br/

Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento

Como educomunicar na escola pública

21 de abril de 2018
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Um relato de práticas e observações de práticas de quinze anos em escolas da Prefeitura de São Paulo

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Numa trajetória de 15 anos como funcionário público na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo tive a oportunidade de descobrir e exercitar algumas práticas educomunicativas, que começaram como projetos de rádio e blog no laboratório de informática e chegaram à gestão de uma grande atividade colaborativa envolvendo vários professores, alunos e colaboradores de fora da escola.

COMEÇANDO 15 ANOS ATRÁS

Já sou funcionário público na Prefeitura de São Paulo a 15 anos. Comecei como auxiliar técnico de secretaria de uma escola de ensino fundamental; mediante concursos públicos fui ascendendo na carreira até chegar a Diretor efetivo de uma escola. A educomunicação começou a ser implementada na Secretaria Municipal de Educação pouco antes do meu ingresso na rede, mas levou um tempo para eu descobrir.

Quando assumi o cargo função de Professor Adjunto, procurei a pesquisa e a inovação na escola, como meus professores me instigaram quando fui aluno da FFLCH e da FEUSP; mas sem saber bem como construir essa inovação minha primeira tentativa foi com a dramaturgia amadora, mesmo sem ter nenhuma experiência prévia nesse sentido. Melhor dizendo, quando fui aluno do fundamental na EMEF Mario Kosel tive professores que trabalhavam eventualmente com apresentações teatrais. Desenvolvi um projeto de teatro fora do horário regular com alguns alunos da escola EMEF Fernando Gracioso que resultou na peça colaborativa Zumbi Gracioso, escrita por eles mesmos através de oficinas de pesquisa em livros e revistas e livre criação. Isso em 2006. Essa produção foi divulgada de forma aberta num blog e rendeu várias remontagens em escolas pelo Brasil. Mesmo sem conhecer o conceito na época fica sendo essa a primeira dica relato de atividade educomunicativa.

1 – PRODUÇÃO DE ARTE COLABORATIVA

A melhor dica para começar é o teatro. Mas podem ser outras artes, como fotografia, desenho, pintura, grafite, música, vídeo-ficção…

Há referenciais recentes sobre Arte-Educação, entre os quais destacamos a pesquisa do aluno de Licenciatura em Educomunicação, Maurício Silva (2016).

Ao realizar projetos de Educomunicação que apenas fazem a leitura crítica dos meios de comunicação, ou que apenas focam na produção, ou que olham apenas para o uso das tecnologias, temos as potencialidades reduzidas porque não trabalhamos por completo o processo de construção do conhecimento, barateando e segmentando as ações. SILVA, 2016, p. 97.

Na sua abordagem, o autor destaca a importância de não se ignorar a complexidade do processo educacional e comunicacional e sempre valorizar processo. Isso que considero a essência do fazer educomunicativo, desde que Kaplún (1998) descobriu ou inventou o termo “educomunicador”.

Podemos buscar também as raízes dessa estratégia em ativistas e conceituadores como Anton Makarenko (2012), que quando foi diretor na Colônia Gorki no início do século XX fomentou tanto a gestão democrática, por meio de assembléias, quando a inovação pedagógica através do teatro. Quando foi diretor da Comuna Dzerjinski também trabalhou com fotografia. Outra referência clássica que podemos consultar é o trabalho de Montessori (2017). Segundo Gabriel Salomão, “Montessori percebeu que a criança passava por diversos períodos sensíveis” e há várias estratégias para aproveitar essas sensibilidades para favorecer o desenvolvimento integral do estudante.

O importante, independente do tipo de arte proposto, é promover a criação pelos próprios alunos, de forma sempre colaborativa e aberta ao diálogo.

DEPOIS A INFORMÁTICA EDUCATIVA

Já no meu segundo ano como professor (quinto de servidor público) assumi a função designada de POIE: Professor Orientador de Informática Educativa, eleito pelo conselho da escola Fernando Gracioso. No Laboratório de Informática não foi possível continuar com o projeto de teatro, mas descobri na escola um equipamento de rádio completo, que estava esquecido num canto do depósito. Só muito depois descobri que esse equipamento havia chegado na escola por causa do projeto Educom.Radio e inclusive alguns professores e alunos da escola haviam feito o curso organizado pelo NCE/USP.

Frente à dificuldade para reativar a rádio, pois dependia da instalação de uma antena, comecei a planejar alternativas com alguns alunos da escola, os chamados Alunos Monitores, um projeto inovador que estava começando na época, em que alunos voltavam na escola no contra-turno para ajudar no Laboratório de Informática ou Sala de Leitura. As alternativas que testamos são as duas próximas dicas / relatos.

2 – PODCASTS

Na época era popular o serviço Podomatic, que inclusive ainda existe. Mas a inspiração que iniciou os podcasts foi o IPod da Apple. Resumindo, podcast é um arquivo de áudio semelhante a um programa de rádio que fica disponível em sites ou aplicativos de sincronização. Fazíamos as gravações de forma bem precária usando microfones de computador no Laboratório de Informática, mas o resultado era fascinante pois captávamos as vozes dos alunos. Nossas primeiras gravações foram os alunos cantando e pequenas entrevistas motivadas pelo projeto Minha Terra proposto pela Secretaria Municipal de Educação.

Nossas produções, apesar de simples, chamaram atenção e fui convidado a fazer um breve relato no Seminário Nas Ondas do Rádio de 2008 na Câmara Municipal. Foi nesse evento que conheci o professor Ismar de Oliveira Soares, o pioneiro Cadu Fernandez e tive maior contato com o professor Carlos Lima, que havia conhecido pouco antes numa oficina sobre rádio escolar. Foi também nesse momento que fui apresentado ao conceito educomunicação, que finalmente dava um nome ao que vários professores estavam fazendo em várias escolas na época. Cito de memória projetos como a rádio Mange da EMEF prof. Roberto Mange, Rádio CLEM da EMEF Conde Luiz Eduardo Matarazzo e a rádio Educart da EMEF Jairo de Almeida, todos coordenados por colegas poies.

3 – BLOG E JORNAL IMPRESSO

No mesmo Seminário citado iniciamos o projeto de jornal (uma simples folha de sulfite impressa). Chamamos de Folha Graciosa. Já estávamos experimentando o blog. Usávamos a ferramenta Multiply, que infelizmente não existe mais, que era muito adequada para uso na escola por permitir escolher quem teria acesso aos conteúdos, principalmente fotos dos alunos. Havia filtros para escolher se o conteúdo seria visto por todos ou apenas por usuários logados no site – Apenas muito tempo depois, com o pouco usado Google Plus, surgiu uma solução semelhante com o conceito de círculos sociais.

O jornal impresso era usado para destacar com poucas imagens e textos curtos as principais atividades da escola e fazer divulgação chamando a comunidade para visitar o blog. Também é um veículo excelente para fomentar a produção e correção de texto, pois os alunos parecem enxergar mais claramente quando veem suas palavras impressas.

4 – RÁDIO ESCOLAR

Com a boa aceitação destes projetos, conseguimos que a gestão da escola na época instalasse a antena da rádio, reativando o projeto Nas Ondas do Rádio. Como estava poie, o equipamento emissor foi instalado no próprio laboratório de informática, permitindo um acompanhamento constante por mim e pelos alunos monitores. Além de transmitir músicas nos horários de intervalo, os alunos davam recados e às vezes inventavam concursos de adivinhas, que eram premiados com a entrega de pequenos livros que a escola havia ganhado em doações. Sem nenhum tipo de treinamento prévio, exceto os curtos encontros que eu havia participado, promovidos pelo citado professor Carlos Lima, os alunos tentavam emular uma rádio de verdade, mas impregnada de vitalidade infanto-juvenil.

5 – IMPRENSA JOVEM E VÍDEO ENTREVISTA

Tudo isso que estou contando e todas essas práticas educomunicativas não são lineares. Essas iniciativas aconteceram mais ou menos ao mesmo tempo ou começaram num período bem próximo, que vai de 2006 a 2008 na escola onde eu estava e foram se consolidando até o ano de 2011, quando deixei a função de poie, saindo da EMEF Fernando Gracioso para ir trabalhar como professor de língua portuguesa na EMEF Jairo de Almeida.

Desde o começo, a EMEF Jairo foi nossa parceria em vários eventos, principalmente pelo empenho e pioneirismo da professora Elaine Martins, que havia feito o curso Educom.Radio e continuou envolvida com projetos de mídias e educomunicação, além de robótica e cultura maker – e continua ainda hoje, sendo uma verdadeira multiplicadora com os colegas professores na região do bairro Perus e eventos onde suas equipes de imprensa jovem participaram.

Em 2005 o professor Carlos Lima trouxe o conceito de equipe de Imprensa Jovem como uma inovação na proposta do Programa Nas Ondas do Rádio. No evento Encontro de Cidades Educadoras, AICE 2008, pela primeira vez as equipes receberam uniformes personalizados, as famosas camisetas laranjas com o símbolo de uma antena em forma de lápis. A primeira versão desse símbolo inclusive teria sido criado por uma participante do projeto, a aluna Priscila Pereira Santos da EMEF Raimundo Correa.

Imagem 1: Uma das primeiras versões, talvez a primeira, do símbolo Educom da Prefeitura de São Paulo.

As escolas Fernando Gracioso e Jairo de Almeida, entre outras, participaram do evento AICE 2008, praticamente inaugurando a imprensa jovem como espaço privilegiado para divulgar o conceito educomunicação e promover ações que são desenvolvidas nas escolas públicas. Desde o começo a Secretaria Municipal de Educação articulou a participação da imprensa jovem em vários eventos, com destaque especial para Bienal do Livro, Bienal de Artes e a Campus Party, onde está presente desde a primeira edição no Brasil, que foi justamente m 2008. Na Bienal do Livro o programa inclusive monta estúdios para uso dos alunos.

Foi na imprensa jovem também que mais transpareceu o uso de técnicas do jornalismo na educação, como pesquisa de pauta, formulação de questões, adaptação e correção de texto. Geralmente as entrevistas eram gravadas com câmeras digitais compactas, eventualmente filmadoras um pouco melhores e o áudio captado com gravadores de fita, gravadores digitais e celulares, para posterior edição. Técnicas de vídeo entrevistas foram evoluindo nesse projeto, por iniciativa dos professores e dos próprios alunos, às vezes inspirados na televisão e, mais recentemente, no exemplo dos youtubers. Todas as escolas da prefeitura de São Paulo que haviam começado a trabalhar com alunos monitores e rádio escolar passaram a trabalhar com imprensa jovem e gravações em vídeo. Também surgiram novas equipes, com propostas muito bem estruturadas, merecendo destaque o projeto da EMEF Julio Marcondes Salgado, chamado Rádio JMS.

NA GESTÃO ESCOLAR

6 – EVENTOS INOVADORES NA ESCOLA – O EXEMPLO DA SEMANA DO ESTUDANTE

Após atuar por 4 anos no setor de tecnologias e informação, TIC, da Diretoria Regional de Educação Pirituba Jaraguá, acessei mediante concurso público a função de Diretor de Escolar na EMEF Luiz David Sobrinho. Nessa escola descobri e procurei apoiar os projetos que já aconteciam na unidade, com destaque especial para a Semana do Estudante.

A história da Semana do Estudante começa em 2005, com a fundação oficial do Grêmio Estudantil da escola municipal de ensino fundamental Professor Luiz David Sobrinho, chamado Jovens Na Atividade. O grêmio foi inaugurado no dia do estudante, 11 de agosto, proposto como um dia especial para troca de livros entre alunos na nossa escola. No entanto, antes disso, em 2002, alguns alunos participantes do projeto Educom.Radio já haviam tentado montar um grêmio na escola. O evento de troca de livros continuou ocorrendo nos anos seguintes, sempre acompanhado por atividades diferenciadas durante a semana, mas aquela que pode ser considerada a primeira edição da Semana do Estudante, com oficinas e palestras feitas por ex-alunos, atletas, artistas e professores convidados, aconteceu apenas em 2015. A proposta foi tão bem aceita que foi repetida no ano de 2016, desta vez contando com mais palestrantes e com várias disputas.

O tema de inspiração em 2016 foram as olimpíadas, assim os alunos foram divididos em grupos representando os cinco continentes. Foi uma proposta ousada, que fez alunos de fundamental 1 (primeiro ao quinto ano) se misturarem com alunos de fundamental 2 (do sexto ao nono ano), independente de idade ou nível de aprendizagem. A colaboração e aliança superaram as diferenças e os alunos puderam experimentar novas formas de aprender.

Em 2016, como parte da participação da escola no Parlamento Jovem, a aluna Mayara da Silva Tavares (na época 9º ano), apresentou o projeto de lei PL 162/2016 para instituir no calendário oficial de todas as escolas municipais a Semana do Estudante e o dia de troca de livros na finalização da semana dia 11 de agosto. O relato da participação da aluna está publicado no Diário Oficial do Município, data 28/01/2017 a partir da página 68. O vereador Laércio Benko encampou o projeto para ser regulamentado oficialmente.

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Imagem 2: Nessa foto de 2013 na Câmara Municipal, Mayara é a 5a na segunda fileira.

Em 2017 iniciei como diretor na escola, já chegando encantado pelos relatos sobre as edições anteriores. Toda a gestão atual da escola, eu, os assistentes Tereza Cristina e Alexandre Afonso e principalmente as coordenadoras pedagógicas Rosana da Costa e Juliana Quintino e nosso coordenador do grêmio escolar professor de educação física Adenilto nos empenhamos em viabilizar e organizar a terceira edição desse grande evento. Como tema motivador sugeri o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, que comemorou 80 anos de publicação em 2016. Assim as turmas foram divididas em 5 grandes grupos, que representavam as principais raízes culturais da nossa nação: Indígena, Africana, Europa, Ásia e Estadunidense. Todos os professores trabalharam muito, planejando atividades e organizando suas turmas.

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Imagem 3: (foto divulgação: Companhia das Letras)

Dessa vez, foi dada menor ênfase à competição, sendo decidido que apenas alunos com destaques nas atividades seriam premiados com medalhas. Como já havia ocorrido na edição anterior, também tivemos grande dificuldade para organizar a participação dos visitantes voluntários, palestrantes que convidamos para dialogar com os alunos: professores colegas, profissionais de outras áreas e ex-alunos desta e de outras escolas. O maior problema foi realmente a agenda, pois o tempo disponível pelos palestrantes era restrito e temos poucos recursos para poder remunerar as participações. As colaborações foram todas excelentes, mas sempre atendendo apenas partes da comunidade escolar.

Tentamos documentar ao máximo essa semana. A maioria das fotos e filmagens foram feitas pelos próprios estudantes, utilizando equipamentos da escola e estão disponíveis nesse link:

https://goo.gl/photos/G73mCohtsd1DjuHS6 Acesso em: 28 mar. 2018.

Imagem 4: QR Code com acesso a fotos e vídeos da Semana do Estudante

Quebrar um pouco das grades escolares foi sobretudo divertido. Fascinante. A avaliação geral da comunidade escolar foi de aprovação e desejando a continuidade da proposta. Mas também foi uma atividade muito cansativa. Para que se tornasse mais uma rotina, em vez de algo raro e excepcional, a escola precisa de mais recursos humanos e financeiros. Como já foi citado, há inclusive um projeto de lei para inserir a semana no calendário oficial, mas sobretudo precisamos buscar formas de continuar tendo atividades tão interessantes assim na escola em outros momentos.

Considero, sobretudo, essa também uma atividade educomunicativa, construída de forma coletiva por gestão escolar, professores, alunos e colaboradores visitantes, em sua maioria ex-alunos e colegas dos professores que voluntariamente compareceram na escola para propor novos jeitos de ensinar e aprender.

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Imagem 5: Visual Samba Black de Caieiras junto com as coordenadoras Juliana e Rosana e, à direita, assistente de direção Tereza Cristina e diretor de escola Fabio.

INVENTAR

A proposta da educomunicação, seja como novo campo de conhecimento na interface entre educação e comunicação, seja como metodologia ou didática que busca a inovação usando novas tecnologias, mas sempre mais preocupada com o processo participativo, aberto e colaborativo; na minha visão traz um frescor necessário para dentro da escola. E há muitas formas de ser desenvolvida. Mesmo propostas mais tecnicistas mais recentemente incorporadas na rede municipal de São Paulo, como o uso uso de robótica, programação e video-games, pode receber uma nova abordagem usando o conceito de educomunicação e de valorização do processo educacional e comunicacional.

A educomunicação, pela sua própria essência, abre novos espaços de inovação para a aprendizagem em grupo. Não precisamos nos limitar aos pequenos grupos de projetos alternativos, como foram os projetos de rádio e imprensa jovem. Há espaço para testar práticas educomunicativas na sala de aula comum e em grandes eventos, como foi a citada Semana do Estudante. Educomunicar na escola pública é possível e não exige muitos materiais. Educomunicar, como dizia Freinet sobre o educar, exige ter “ter esperança otimista na vida”.

REFERÊNCIAS

KAPLÚN, Mario. Una Pedagogia de La Comunicación. Madri: Ediciones de La Torre (1998).

MAKARENKO, Anton. Poema pedagógico. Editora 34. 1ª edição (2012)


MONTESSORI, Maria. Descoberta Da Criança, A - Pedagogia Científica. Editora Kirion. (2017)


SILVA, Maurício. A contribuição da abordagem triangular do ensino das artes e culturas visuais para o desenvolvimento da epistemologia da educomunicação. Dissertação de Mestrado. ECA/USP. (2016). Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27160/tde-03022017-163215/pt-br.php Acesso em: 18 mar. 2018.

					

Ser Diretor de Escola…

24 de dezembro de 2017

Percurso

Após 14 anos de serviços no funcionalismo público, sempre na área da educação, aceitei o desafio de ser diretor de escola.

O caminho que me trouxe aqui pareceu natural. Quase um acaso. Prestei muitas provas, passei em algumas delas, após ser jornaleiro por quase 2 anos e trabalhar 8 anos ocupando alguns cargos e funções numa empresa de transporte, passei num concurso público da Prefeitura de São Paulo e ingressei como Auxiliar Técnico de Educação em 2003, trabalhando em secretarias de duas escolas. Em 2006 assumi como professor de língua portuguesa, em 2007 assumi a função designada de POIE (professor orientador de informática educativa), cargo que ocupei por 4 anos e onde aprendi muito sobre uso de tecnologias na escola e descobri o Programa Nas Ondas do Rádio, o conceito educomunicação e desenvolvi projetos de imprensa jovem, rádio e jornal escolar. Uma parte dessa história foi contada numa matéria de jornal que está aqui copiada.  Interessado no tema cursei especialização em Mídias na Educação da parceria MEC/E-Proinfo com a ECA/USP e iniciei  em 2011 uma segunda graduação, no curso Licenciatura em Educomunicação também da ECA/USP. Em diferentes momentos acumulei cargo, por ter passado novamente no concurso para professor de língua portuguesa; e duas vezes exonerei o segundo cargo. Em 2013, por indicação do colega Marcelo, assumi novamente uma função designada, dessa vez de Assistente Técnico de Educação atuando no setor de Tecnologias (TIC) da DREPJ – Diretoria Regional de Educação de Pirituba e por isso abandonei a graduação na ECA, dois anos após iniciada. Por ser uma jornada J40 (40 horas semanais) essa designação melhorou um pouco minha remuneração.  Também ocupei essa função por 4 anos, ajudando as escolas da região a lidar com demandas administrativas, com destaque para o Educacenso, a coleta do Bolsa Família e uso do sistema EOL (Escola on Line); aprendi muito sobre uso de tecnologias na administração escolar. Nesse período, para me atualizar e ouvindo dicas de colegas da DREPJ, fiz cursos parcialmente a distância de especialização em Gestão Pública Municipal no polo UNICEU Pera Marmelo e uma segunda graduação em Pedagogia, como complementação para licenciados. Esse segundo curso me habilitou a prestar o concurso para diretor de escola, em que fui aprovado.

Fiz uma carta me despedindo do setor TIC da DRE Pirituba onde também contei um pouco do meu percurso.

AGORA estou aqui. Um ano no cargo/função de Diretor de Escola efetivo. Recentemente me tornei pai da linda Elisa, outro grande desafio; mas preciso agora refletir sobre o que é ser diretor numa escola pública municipal de periferia.

Expectativa

O que acontece quando um professor  inovador, ou pelo menos preocupado em buscar a inovação, resolve ser diretor de escola?
Ou ainda
O que acontece quando um burocrata de nível de rua, um quase técnico de informática num setor de gestão intermediário – preocupado sempre em ajudar as escolas públicas a atenderem bem seus alunos, por quase acaso acaba sendo ele próprio um gestor escolar em contato direto com alunos, professores e comunidade de um escola que não conhecia?
Mais até
Um certo tempo pesquisei o conceito educomunicação, na interface entre educação / comunicação e continuo interessado nisso – mesmo diretor estou procurando meios de fomentar o #educom e sou associado à ABPeducom. Alguns me julgam educomunicador, nome cunhado e possivelmente inventado por Mário Kaplun.
O que acontece quando um educomunicador vira direção escolar?
Essa provocação que faço é para mim mesmo. Pois às vezes me vejo como um professor absolutamente comum, que ficou 4 anos longe da sala de aula e se tornou um gestor inexperiente; mas muita gente espera muito de mim. Altas expectativas.

Oportuno

Tive a grata oportunidade de não sair diretamente da sala de aula para a gestão escolar, ao contrário da maioria dos meus colegas. Minha experiência na DRE e o curso de gestão pública municipal me prepararam pra esperar muita coisa. Mas nem tudo. A dinâmica diária da escola traz uma enormidade de questões, que havia quase me esquecido atuando alguns anos num órgão central, apenas com visitas ocasionais nas escolas.

Também tive a sorte de poder escolher uma escola com boa condição estrutural, apesar de ser antiga e precisando de reformas como a maioria dos equipamentos públicos; e principalmente sem problemas documentais ou processos administrativos. Os colegas da DRE, principalmente a Lilian e o Durval, me indicaram as melhores escolhas entre aquelas que sobraram na minha vez de escolha (num concurso público a sequência de escolha é de acordo com a ordem de classificação). Isso tornou minha adaptação às novas responsabilidades relativamente FÁCIL.

Mesmo assim… e exercitando uma paciência enorme…, como qualquer novo diretor cheguei querendo fazer muitas coisas. Fui cuidadoso ao máximo tentando manter a equipe gestora que já estava na escola, Alexandre, Tereza e Cíntia (assistentes de direção e secretária, cargos de confiança na secretaria municipal de educação que posso escolher livremente, entre aqueles habilitados), pensando que se necessário poderia fazer a transição depois, sem pressa e sem quebrar a dinâmica da escola. Tive a sorte de contar com duas coordenadoras pedagógicas muito boas, Rosana e Juliana, eleitas pelo Conselho de Escola, uma delas iniciando sua atividade nesse mesmo ano e a outra apenas em seu segundo ano de atividade, mas desde do início ambas demonstraram talento e dedicação.

Consegui manter a organização da escola e em alguns pontos me esforcei para melhorar os processos. No entanto uma das minhas metas, que era fomentar projetos de educação integral,  simplesmente fracassou. A escola hoje talvez tenha menos projetos para atender alunos nos seus contra-turno do que já teve em anos anteriores e com poucos alunos participando. Uma parte da culpa disso foi a terrível diminuição do projeto Mais Educação federal e o baixo enfoque em educação integral na gestão atual da prefeitura, mas o principal motivo foi realmente a falta de professores com disponibilidade de tempo. No geral, um grande problema na escola é a falta de profissionais, tanto professores quanto auxiliares, o que atrapalha muito qualquer proposta de qualidade no atendimento. Recentes chamadas de concursos públicos têm aos poucos diminuído esse déficit, mas também temos muitos professores e auxiliares em afastamento por licença médica.

Há também problemas visíveis de aprendizagem e vários procedimentos pedagógicos que não são implementados por todos ou poderiam melhorar muito.

Rotação

Meditando sobre essas dificuldades  e também sobre tudo que ainda é possível fazer nessa adversidade, pensei que a gestão escolar pode ser analisada pelo viés de pelo menos quatro (4) eixos: Concepção de Educação, Recursos Disponíveis, Ousadia e Saúde.

Vou dissertar um pouco sobre cada ponto em separado, mas pensei que cada um desses eixos poderia ter um segundo nome, como uma visão alternativa para ajudar a entendê-los enquanto conceitos. Esses nomes alternativos seriam: Ideologia da equipe gestora, Parcerias, Precaução e Sorte.

1- Concepção de Educação / Ideologia da Equipe Gestora

É fácil dizer que não existe dois lados. Talvez existam muitos. Mas em essência se dividem em dois e quem diz que não tem lado geralmente está do lado do qual discordo. Meu compromisso é com a esquerda: que compreendo como a obrigação do Estado em ser representante do povo e se preocupar com tudo relativo ao povo; o planejamento para cada vez mais pessoas comuns participarem diretamente da gestão, sem precisar delegar todas as decisões para um grupo privilegiado; a necessidade de estar sempre engajado na luta constante para promover e garantir cada vez mais igualdade social.

Quem acha que a educação serve também para isso está do meu lado. Mas nem sempre somos coerentes em nossos pensamentos e na execução daquilo que nosso discurso diz ser o mais correto. Há pessoas com discursos que considero lindos que no final simplesmente fazem o serviço sujo do lado contrário – desserviços à educação de qualidade.

Como já deve ter sido dito em algum lugar, a gestão escolar é essencial para promover essa concepção em toda a escola; orientar profissionais para trabalharem todos os dias com esse horizonte: a qualidade da educação, que deve ser sim transformadora; e se necessário fiscalizar e restringir a ação daqueles que fazem o contrário disso – por sorte, uma minoria. A educação é realmente a área que mais atrai profissionais comprometidos com o compartilhamento do saber e a promoção da igualdade.

Não há consenso sobre a melhor forma de alcançar os melhores resultados. Espero aos poucos, pelo diálogo com aqueles que sabem mais, ir formando uma visão consistente que pode ter bons resultados e articular minha equipe nesse rumo.

2- Recursos Disponíveis / Parcerias

A maior parte das demandas da escola, principalmente manutenção, insumos e materiais básicos, são tratadas diretamente pela escola através de verba vinculada. Ou seja, a escola recebe dinheiro para administrar. Em certa medida a escola, ou melhor, a APM – Associação de Pais e Mestres, funciona como uma empresa, com registro em cartório, conta corrente corporativa, contador… Como se pode imaginar, isso é bem complicado para quem tem formação para ser professor de ensino fundamental. Além disso, nem sempre os recursos monetários que recebemos são suficientes. Falta também recursos humanos, é comum que a gestão e até o quadro administrativo tenha que se desdobrar para atender bem alunos, por falta de professores. Com frequência também sofremos com falta de profissionais do administrativo. Falta no sentido de não ter mesmo o profissional disponível para a vaga, ou no sentido de absenteísmo pelos mais variados (justos, compreensíveis ou incompreensíveis) motivos.

Sei de poucas escolas públicas que não sofram por essas faltas de recursos e a minha não é exceção.

Por isso mesmo a escola sempre precisa de boas parcerias. Colegas que nos visitem trazendo olhares diferentes e novas ideias. Prestadores de serviço de qualidade que possuam preço justo, dentro dos nossos orçamentos e consultores que nos ajudem a usar os recursos de forma transparente e correta. Muitas vezes conseguimos na Diretoria Regional de Ensino – DRE essa consultoria, outras vezes com colegas gestores de outras unidades, inclusive através de consultas informais em grupos de mensagens coletivas. Os sindicatos também podem ser pontos de apoio importantes, não apenas para reivindicar  mais verbas e melhorias nas condições de trabalho, mas também para orientar ações imediatas no meio do furacão. Os programas de estagiários Parceiros de Aprendizagem, Cefai (apoio à inclusão) e Mais Alfabetização também trouxeram para dentro das escolas estudantes para aprender, mas que acabam ajudando bastante.

O importante é sempre buscar e ter ajuda.

3- Ousadia /  Precaução

É normal querer mudar tudo. Nós educadores, ou pelo menos a maioria dos bons professores e professoras que conheço, sentimos também que a escola precisa evoluir. Que é necessário atualizar as formas de aprendizagens. Mas a escola, como é hoje, mesmo com todos os problemas e com toda falta de recursos, ainda funciona. Queremos o novo, mas percebi que ser ousado e apressado demais seria temerário. Antes de mudar algo, é preciso garantir que o sistema não entre em colapso.

Por tudo que contei aqui fica claro que fui precavido.Talvez até demais. Mas o acerto dessa decisão me parece evidente após esse um ano. Ainda estamos construindo as bases da educação e apesar da minha escola ter sido aberta em 1988 e ter alguns profissionais que já trabalham na unidade a mais de 10 anos, ela ainda está construindo um perfil. A ousadia e a inovação não devem e nem precisam ser uma quebra nessa estrutura, já que ela ainda está em formação.

4- Saúde / Sorte

O termo sorte vem de algo que o colega diretor Antonio, conhecido como Tico , da EMEF Ernani Silva Bruno, me disse quando soube que eu também me tornaria diretor. É preciso muito preparo e muita dedicação para fazer um bom trabalho, mas também é preciso um bocado de sorte. Às vezes as coisas simplesmente não dão certo. Mas a saúde, tanto do gestor quanto dos muitos profissionais da escola, é parte dessa sorte. E zelar para evitar ao máximo prejudicar a própria saúde e a saúde de todos na escola é algo que sempre deve estar em mente. É preciso um nível de energia e disposição, tanto física quanto mental, excepcional para aguentar o tranco constante do trabalho na escola. Uma obra difícil, pois envolve relações intensas com muitas pessoas muito diferentes entre si. Em vários momentos vi colegas fraquejarem e eu mesmo tive que usar toda força de vontade para me manter firme, sem ceder às sombras que às vezes anuviam nossa visão, sem ceder ao desânimo que às vezes nos faz pensar que nada dará certo.

Não é verdade.

Não deu tudo certo, mas muito coisa boa aconteceu nesse ano e analiso esperançoso que os processos estão avançando. No final do ano enviei para os colegas professores uma mensagem muito sincera afirmando isso.  Há notícias de que (talvez) os repasses de verbas voltem pelo menos ao nível de 2016 no próximo ano e que as prestações de contas sejam simplificadas, o que deve ampliar nosso poder de ação e diminuir o trabalho burocrático da equipe gestora. Alguns profissionais novos estão chegando na escola mediante concursos, escolhi uma nova Assistente de Direção para me ajudar após a saída / aposentadoria da colega Tereza e agora que eu a equipe de profissionais da escola nos conhecemos melhor podemos planejar ações que preservem nossa saúde e permitam que a escola realmente avance em sua função social de ensinar.

Nuances
Entremeados nesses EIXOS há algumas nuances da gestão escolar (Inclusive pedagógica) que considero importantes e pretendo analisar em serviço e mostrar na forma de pequenos artigos informais aqui nesse blog, PORQUE podem gerar comentários que me ajudem a pensar e quiça podem ajudar outras pessoas.
Continuando essa discussão iniciada aqui, pretendo em breve escrever sobre:
Curadoria
Zeladoria
Apoio (inclusive burocrático)
Liderança
Essas nuances servem para:
A aula
A Pesquisa
O Planejamento
A Invenção 
Em 2018 continuo firme aqui na escola que escolhi – emef Luiz David Sobrinho. Agora com o desafio de começar a desenvolver e implantar as minhas concepções de educação com a ajuda da minha equipe.
Engraçado como a escola (instituição / espaço / coletivo) ao mesmo tempo que nos cansa, também nos re-alimenta. Nesse Um Ano tive muito estímulo para virar um diretor fechado e conservador. Na verdade comecei a entender aqueles que são ou parecem ser assim. Mas encontrei também força e ânimo para manter minhas convicções e continuar acreditando que é possível fazer diferente e melhor. Um ano. Mas aconteceu tanta coisa… E isso é só o começo.